sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Homem que foi esquecido pelo Céu

Lembrado por Ciro M. Costa







Era mais um dia de rotina no céu. Pessoas recém-morridas chegavam, São Bililo lia um histórico de vida... e era decidido em 1 hora se continuariam ali, ou entrariam pelos portões calorentos do Inferno.
No entanto, esse seria um dia especial. São Bililo não se esqueceria facilmente dele, e nem daquele homem que acabava de chegar.
- Olá.
- Olá. – disse São Bililo. – Qual é seu nome completo?
- Eu sou Rito de Cássio.
- Só um instante...
São Bililo digitou algo em seu notebook. Aquela feição de santo acostumado com a rotina se transformou um pouco.
- Pode repetir seu nome, por favor?
- Rito. Rito de Cássio.
Novamente, digitou mais algumas palavras, e achou ainda mais estranho.
- Engraçado... não consigo achar seu nome aqui. Benzinho, me fala seu nome e não apelido.
- Desculpe, mas meu nome é realmente Rito de Cássio.
- Ceeerto, baby boy. Como se chamava seu pai?
- Priscilo de Cássio.
- Huuum... seu pai consta na lista. Aliás, ele já está aqui no céu há 13 anos. Sua mãe era a Dona Ricarda?
- Isso mesmo!
- É, as informações batem. Mas não consigo encontrar você. Se for o diabo disfarçado querendo entrar aqui, pode esquecer, caboclo!
- Eu não sou o diabo! Sou Rito de Cássio!
- Bom, vou ter que apelar então para os arquivos diretamente da Terra. Vamos ver o que encontro. Já viu quando uma pessoa chega pra você e fala: “Fulano, você não existe, hein?”. Parece ser o seu caso, hahahahahahahhaha!!!
- Era pra rir?
A descontração era somente para disfarçar o medo. Na verdade, esse tipo de coisa nunca havia acontecido no Céu, e São Bililo estava com medo de levar ‘chumbo’ do “pessoal de cima” pela desorganização no cadastro.
- Encontrei! – disse São Bililo, um pouco aliviado. – Você tinha Facebook e chegou a postar algumas coisas no Twitter. Vai continuar usando ou posso fechar a conta aqui?
- Depende. Vou poder continuar usando?
- Só para ler, sem postar nada.
- Então pode fechar.
- Senha?
- Rito3955.
- Hum... prooonto, balofinho! É estranho, você tem muitos arquivos na Terra... mas no meu sistema não consta NADA! Nem seu nascimento, sua árvore genealógica, seu falecimento... parece que você foi esquecido pelo Céu!
- Nossa! Não sei se fico surpreso ou decepcionado com vocês! Como podem me esquecer? Justo eu?
- Por que? O que fez de tão especial, gordinho sapeca?
- Oras, eu sempre fui uma pessoa honesta, trabalhadora e com todas as obrigações em dia! Nunca fiz nada de errado!
- Nada?
- Nada!
- Nada mesmo?
- Nadinha!
- Certo, bacana... – disse São Bililo, com ironia. – Deixe-me ver aqui... você era pedreiro. É isso?
- Sim, e dos bons!
- Realmente. Aqui consta que você era um pedreiro bastante honesto. Sabia calcular perfeitamente a quantidade de cimento e tijolo seria gasto em uma casa. E nunca sobrava nada? Não deixava sequer cair um pingo de cimento no chão??? Espere aí, o arquivo está com algo errado...
- Não senhor! Está tudo certo!
- Ah, pára! Vai falar que nunca fez nada errado em uma construção? Não deixou nem um azulejinho torto???
- Nunca!
- Uma janela fora do lugar, por poucos centímetros?
- Não!
- Um buraquinho na parede, jovem? Só pra entrar formiga?
- Jamais!
São Bililo não acreditava, mas os arquivos não mentiam. Ligou para a filial do Céu na Terra, e eles confirmaram tudo. Foi mais além: ligou para o celular do Diabo, e este disse que também nunca ouvira falar de Rito.
- Uma pessoa tão boa assim, agradeço a Deus por não saber da existência. – disse o chifrudo.
“Pro Diabo agradecer a Deus, então a coisa é séria!”, pensou São Bililo.
- Éééé... – disse ele. – Eu não entendo, ao mesmo tempo que tudo aponta que você esteve na Terra, nada aponta que você exista para o Céu ou Inferno. Como uma pessoa tão boa e honesta pode ter sido esquecida por nós?
- Eu quem deveria perguntar isso. Como podem ser tão desorganizados?
- Não é esse o caso, batutinha! No começo pensei que fosse um erro meu, mas o sistema aqui nunca falha. E pense bem: você foi um pedreiro que sempre fez tudo certinho, sem nunca relaxar ou deixar algum servicinho mal-feito! E além diss... espere aí!!!
- O quê?
- Rá! Achei um deslize seu, garotinho maroto!!!
- Que deslize? Onde?
- Aqui ó! Ó! Espia aqui, bobo! No dia 02 de janeiro de 2011, ó! Você quebrou um tijolo! Rá!
- É verdade... Mas pedi pro dono da casa descontar do meu pagamento!
- Aaaah, então está explicado! Como sempre, o Céu não se enganou!
- Por que?
- Você, realmente, NÃO EXISTE!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pulmão Esquerdo contra a Artéria Poplítea

Trazido de volta por Ciro M. Costa




Olá amigos e amigas. Estão todos bem? Todos saudáveis? Todo mundo cuidando direitinho do seu organismo? Então está ótimo. Pra quem não me conhece, eu sou Hért, o Coração. Isso mesmo! Sou um coração que narra histórias. Depois que meu dono morreu e vim parar dentro deste vidro nessa faculdade de medicina, é só que me resta: narrar histórias.
Bom, por falar em histórias, me lembrei de uma bem interessante hoje. Foi há muito tempo atrás, quando resolvi deixar a presidência do organismo para cuidar de minha vida. Sim, precisava dar um tempo, sabem como é...
Depois de minha decisão, dois órgãos se candidataram à presidência: o Pulmão Esquerdo e a Artéria Poplítea (legal esse nome, né?). Mas um deles só poderia ser eleito com o voto da maioria dos órgãos. Bem, vou contar como foi:
Mal anunciei que ia deixar o cargo, e o Pulmão foi logo se candidatando:
- Sem mim, não há respiração e nem vida! Sou o mais indicado para o cargo. – disse ele.
Logo depois, veio a Artéria Poplítea:
- Está na hora do mundo conhecer mais sobre mim! Estou cansada de viver no anonimato!
E assim começou uma campanha eleitoral que entrou para a história do organismo. Se eu ainda tivesse contato com o Cérebro e a Boca, eles poderiam dar mais detalhes a vocês.
Sabem, aqueles foram dias agitados no organismo. Muitos glóbulos vermelhos corriam de um lado ao outro, para distribuir panfletos da campanha. Como a Artéria tinha muitas amigas como ela (e ainda era amiga das veias), pra ela foi bem mais fácil de espalhar sua propaganda eleitoral. Já o Pulmão, chegou a apelar algumas vezes, prendendo o ar dentro do organismo. Passamos por maus bocados:
- Só fiz isso pra se lembrarem de mim. – ele ameaçava.
Nem é preciso dizer que o Pulmão Esquerdo era totalmente apoiado pelo Pulmão Direito.
Por muitas vezes, os Tímpanos me contaram que a Artéria Poplítea alegava que o Pulmão estava jogando sujo, assim como fez o Intestino em outra eleição, há alguns anos atrás. Mas não se podia levar o Intestino em conta, afinal, ele só fazia merda. Lembro-me que ele jogou tão sujo naquela eleição, que acabou preso. Porém, teve que ser solto em pouco tempo, pois ninguém agüentava mais e ele precisava ser solto o quanto antes, senão algo mais grave (e sujo) poderia acontecer. Intestino preso não é bom, vocês entendem, não é?
Mas voltemos à eleição recente. Muitos órgãos comentavam que a Artéria Poplítea não teria muita chance de ganhar. “O Pulmão é bem mais forte e importante”, disseram alguns. Os Rins chegaram a falar:
- Desse jeito a Artéria Poplítea vai ter que subornar o Cérebro pra fazer a cabeça da galera.
Hahahahahahaha!! Sabem, às vezes os Rins era tão gozadores quanto o pessoal do Sistema Reprodutor. Saudades daqueles caras. Alguns órgãos chegavam a urinar de tanto rir de suas chacotas!
Apesar da brincadeira, a Artéria Poplítea pensou realmente em subornar o Cérebro, mas com que meios? Ela era apenas uma artéria, não tinha muitos poderes ali dentro. Sem falar que quase nunca era lembrada e às vezes os órgãos nem sabiam qual artéria era candidata (se era a da perna esquerda ou da direita). Aliás, nem eu lembro...
Estava na cara que o Pulmão Esquerdo ia ganhar. Por isso, a Artéria Poplítea teve que apelar. E digo a vocês que ela apelou feio! Não sei como, mas ela (talvez através de alguns contatos) conseguiu convencer o pessoal do Sistema Imunológico a ficar do lado dela, e foi aí que a coisa tomou rumos extremos. Alguém daquele setor libertou um Vírus da Gripe que estava incubado (esse era o mais forte e perigoso, estava cumprindo prisão perpétua) e aí a coisa piorou. Pessoalmente, nunca confiei no pessoal do Sistema Imunológico. Nunca eram competentes o bastante e muitas vezes eram acomodados, só trabalhavam com a ajuda das Vacinas. Quando não era com a ajuda delas e um novo vírus chegava no organismo pela primeira vez, alegavam:
- Não conhecemos esse vírus e não sabemos do que ele é capaz. Mas da próxima vez que ele tentar entrar de novo, vamos barrá-lo! Nós prometemos!
Eram um bando de covardes, isso sim! Era como diziam os Rins:
- Esse sistema é imunológico sim... IMUNE A TRABALHO!!!!
Hahahahahahah!!! Ai, ai... Bem, continuando, nesse período de gripe forte, houve um rebuliço danado no organismo, e os Pulmões chegaram a ter dificuldade de trabalhar. Foi nessa época que a Artéria Poplítea perdeu o apoio da Garganta e das Narinas. O Cérebro, coitado, chegou algumas vezes a delirar:
- É quente como a polpa de júbilos escandinavos. É escarlate, meu amigo. É escarlate girofônico.
Levou alguns dias até que o Sistema Imunológico prendesse o tal Vírus novamente. Isso porque o Estômago interveio, pois estava vazio há alguns dias e já não agüentava mais ingerir tantos remédios.
Bem, depois disso, todo mundo passou a respeitar mais a Artéria Poplítea. Ela não era pouca merda no organismo. Provou ter muitos contatos poderosos ali dentro e bem poderia ser uma boa presidenta. Mas o Pulmão Esquerdo continuava confiante. Tinha certeza de que o cargo já era dele.
Chegado o dia da eleição, o organismo ficou bastante movimentado. Ficamos tão movimentados que pedíamos água e comida a toda hora. Nosso dono engordou uns 3 quilos naquele dia (segundo me contou o Estômago depois). Com isso, o Intestino e os Rins tiveram que trabalhar bastante.
- É mole? Trabalhar em dia de eleição! Dá-lhe água verde! – disseram os Rins.
Bem, é preciso dizer que aconteceu uma coisa muito engraçada naquele dia. Engraçada mesmo, podem ter certeza. No final da tarde, houve a contagem de votos... e adivinhem o que aconteceu? Sim, isso mesmo! Um empate. Bem previsível nesse tipo de história, não é?
- Exijo uma recontagem! – disse a Artéria.
Mas não havia nada de errado com a contagem. Isso havia ficado a cargo do Cérebro e dos Nervos, um pessoal bem confiável. Foi aí que apelamos para a lei do organismo, e era bem clara: “Havendo um empate na contagem de votos, o presidente atual dará um exame aos candidatos. Aquele que for aprovado, será o eleito”. Ou seja, eu daria o tal exame.
Foi o que eu fiz. Dei um exame bem difícil para o Pulmão Esquerdo e a Artéria Poplítea. Eles até que se saíram bem. Mas no meio dessa bagunça toda, eu havia resolvido não deixar mais a presidência do organismo. Sei lá, eu até que ganhava bem e, no final das contas, sendo presidente ou não, iria trabalhar de qualquer jeito.
Então, dei bomba para os dois. Entenderam? Sou um Coração, eu BOMBEI eles.
Legal, né? Então, até a próxima!

sábado, 9 de abril de 2011

Os três - parte 2



O segundo que chegou era como um resto de rio ou de fonte, que se enche somente quando cai a chuva. Parecia uma existência daquelas que sobrepujam os ares com semblante idôneo de leveza, mas na verdade era algo parecido com o tempo-que-ainda-será-e-não-foi. Era como a nuvem agreste em temperamento sórdido. Uma sordidez íntima de momentos anteriores à passagem para o futuro, um sentimento de angústia misturado com pura calma. Como era belo!

Eu já havia percebido tipos de belezas em diversos lugares, mas aquela era uma beleza feia, dessas que ao voltarmos ao passado recente soem alegrias e infâmias gritantes. Porque ele somente queria, e para ser não basta somente querer. Ser necessita de presença e afeição. Ser precisa da aprovação, senão não se é. É por isso que só soem ser os que logram buscar temperamentos gentis nos passeios que faz o mundo-que-dança e alcança de novo as gotas de um cálido instante que não passa nunca, e que quando chega não passa mais. O próximo instante deverá ser de uma talvez calma inóspita, junto às incertezas de quem passa pelo mundo e não chega a visitar a si mesmo, sua casa é vazia e habitada por seres inversos à visão crescente. Assim somos quem já vivenciou a chegada do segundo que chegou e não deverá chegar mais.

O segundo que chegou também trouxe o cheiro que era infame, quente e atraente da rosa sem espinhos. Mas a rosa que não tem espinhos não é digna de si mesma, por isso traz o sofrimento do não-saber-vencer, ou ainda o dilema do ser-sem-ser, este quase inexistente em todo o universo anterior ao sol-do-amor. Ser para o segundo que chegou não era só fingimento, era também argumento de busca e encantos perdidos nas águas paradas.


domingo, 3 de abril de 2011

Os três - parte 1




         O primeiro que chegou era como uma explosão dupla, com seus dotes de rei e aconchegante como verde solar. Este primeiro momento crucial na sobrevivência do dia-a-dia é que faz aqueles que amam dançarem sem desconfianças perenes, sem nenhum motivo para ter vida, porque um pedaço de suas vidas já se foi, como quem perde uma parte de tudo. O primeiro chegou trazendo consigo uma música que tinha algo de céu e algo de trevas. Liberdade sem fantasia e prisão sem motivo. Algo como madrugada fria e rua em noite de chuva.
         Chegou trazendo a vida que lavra o espaço da selva e ergue as mais antigas árvores onde não há céu de estrelas. Sonhou-me com uma voracidade tão maravilhosa que nem eu mesmo acordei-me do sonho. Era um misto de paz e pavor, garantia de felicidade mórbida. Mas aconteceu. E nos músculos que haviam em seu corpo pude perceber a sutileza da relva que corria dentro de todas as florestas, com cheiro de mato e saúde solar. O primeiro que chegou veio no meio de uma tempestade. Esse foi o primeiro beijo, o primeiro sonho e o primeiro tudo.

sábado, 26 de março de 2011

A SOMBRA-QUE-CAMINHA

Giovanni Oliveira

Dividindo caminhos iguais, a Sombra-que-caminha sombreia a água da morte. A sombra que se nos vai revelando aos poucos.
O nosso sorriso some, e ela disse seu nome não. Ela é simplesmente a Sombra-que-caminha. Ou unicamente Ela. Seu nome não sabemos, porque, na verdade, não SE chama solidão, como as pessoas concebem, porque é a Sombra-que-caminha. Ou simplesmente Ela.
Ela acompanha os que sentem desejos de ser. Aqueles que buscam encontrarem-se com o Grá são aqueles cobertos por Ela, a Sombra-que-caminha. Parece que quem busca o Grá não o encontra, pois o Grá possui maneiras de se apresentar somente àqueles que não procuram nada.

Não é o caminho do lugar onde se quer ir, mas a Sombra-que-caminha balança-SE sobre todos. Alguns atendem-NA, deixando-se congelar pela Sua influência irritante. Pobres criaturas que se dividem em pedaços de si mesmas, para poderem esperar pelo amanhã inóspito.

Talvez se compuséssemos notas longínquas que tomassem voo longínquo até sabe-se lá para onde, talvez não sentíssemos faltar o ar ao vermos outras pessoas juntas sendo. Porque ser sozinho é deixar de ser, é o não-ser. É o que os gregos chamavam de mé ón, isto é, o não-ser.

Porque encontrar-se com a Sombra-que-caminha é tornar-se o rouxinol que canta tão somente para si mesmo. É também ser o peixe nascido e criado no deserto.

Seco.

Ou ainda a abelha em estado latente de nascente congelamento.

Porque o canto d’Ela é o som do silêncio que destrói ou corrompe a essência, e derrama luzes ásperas sobre o que ainda existe enquanto a sensação de Sua úmbrida túnica não chega. A Sombra-que-caminha é a sombra do mês de março.

Às vezes Ela cobre as pessoas depois que muitos amaram e choraram, vem após o completo desespero gritante.

Outras vezes, no entanto, envolve-nos ainda no útero, fazendo-nos nascituros fracassados. É porque amamos o que não existe. Assim nos inteiramos da vida seca que levaremos desde sempre e até o final. A música seca do silêncio que funde-se com o vento seco a trazer-nos secas folhas do outono, sem retorno.

Então quero afundar mais e mais em mim mesmo.

Quero andar em direção ao tudo, ou ao nunca mais. O nunca mais não existe.

Quero esquecer que nasci para não ser e assim poder um dia ser para conseguir nascer. Ser, para mim, é encontrar-me com o Grá.

Vede-vos, pois, a natureza com suas aves se amando, a migrarem unidas para onde o sol brilha. Porque amo o sol que ilumina o céu azul. E por amar o céu azul, também amo ainda mais o mar. Felizmente, quem ama o mar é menos atingido por Ela, a Sombra-que-caminha.

Senti-vos, ainda, a brisa tocando cada montanha e sendo feliz em dividir-se com o vento. A brisa e o vento são únicos, unidos. Eles É.

Contempla-te o dia e a noite. Há nada mais completo.

A Sombra-que-caminha pode ser para todos nós o momento da anti-chuva, já que, quem não é, é gente seca. Essa leveza que fica no coração transforma-se em árida planície a estender-se diante do nunca mais. Mas o nunca mais não existe, e isso é a mais pura verdade, pois quem disse foi a Hilda.

Então ser só é beijar diariamente o desejo que jamais há de realizar-se, abraçando o tempo que nunca passa, amando somente o que não existe. Atravessando a vida em se apaixonando por várias vezes e não viver nenhum desses amores.

A Sombra-que-caminha surge do silêncio da música, sem cantares. Onde a umidade única provém da lágrima única que jorra despencada até o fim do nunca mais. Mas o nunca mais não existe.

Mas a Sombra-que-caminha existe. Ela há.

Ninguém sabe quando ela chega e Ela não Se preocupa em desvencilhar-Se das vestes que A cobrem. Seu aproximar-se é tido como lento, mas é inconsequente. Ela é rápida para cobrir melhor quem não se dispõe a conhecê-La, Ela é inviolável.

Em derredor, as múltiplas folhas caídas do outono perene é o que se faz nascer em resultado da extinta vontade de conseguir amanhecer o dia sem amarguras. Ela chega. E não, mais uma vez, não diz nada. Somente aproxima de nós Ela mesma. E tão logo se aproxima, acerca-se de nossa existência para depois contemplar o que de mais sem importância há em redor. Serve-se da consciência em estado de puro-sangue e comtempla-a em asco recente.

O perfume d’Ela recende por sobre o pátio, mesmo do lado de fora, levando ilusórias sensações sombrias aos que soem fingirem-se de si mesmos. Não finjo que sou, pois ser para mim é realmente integrar-me com o Grá, e é impossível fingir que se conhece o Grá, pois o Grá apresenta-se diferente para cada um. Então Ela, sempre sombria, repugna-nos com temperamento soez, porque Ela quer fingimento.

Porque ela não tem escrúpulos, sempre tenta ou tenta sempre ludibriar Suas pseudo-vítimas em intentos ociosos de leveza dolorosa. Em vez de pensar, Ela age rápido, mais rápido que o mel em pingamento sobre a pedra rosa.

Gostaria eu de conhecer o Grá.

Mas Ela diz que será para sempre assim, embora o para sempre também não exista. Ela sói agir assim.

Não há como esquivar-se d’Ela, porque Ela te acompanha por onde quer que vás e quando pensas que te encontras livre, Ela se encontra atrás de ti a cobrir-te. Ela, a Sombra-que-caminha, Ela que mantém noivado contigo mesmo sem saberes ou quereres. Ela caminha sordidamente contigo sendo noiva tua, impedindo-te de encontrar quem quer que seja pelo teu caminho de tentar ser; Ela torna-se dona de ti, não permite que outrém se aproxime de ti; não economiza meios de manter os outros afastados de ti, ou manter-te dos outros ao longe. Ela desce contigo por onde fores, enroscando-se em ti sobre ti mesmo, levando-te a pairar por sobre as nuvens altas, ou ainda sob a terra fofa. Contudo, não és tu em pessoa que vais, porque é tua mente volitante que sói ir onde quer que Ela queira. Então tu e Ela descem juntos a lugares onde há frio e a palidez de outras sombras escuras. E de todas, Ela só é a Sombra-que-caminha, pois das sombras só Ela caminha sobre os que querem ser e não podem. Assim é Ela, a Sombra-que-caminha.

Senta-te então, assim, sobre o tapete perto da porta fria e espera por Ela, a Sombra-que-caminha. Deixa, porque Ela se aninha sobre ti para tirar-te da palavra em que te encontras, fazendo te percas em teus próprios desejos. Isso é para que Ela coloque em ti a frieza inerente a Ela própria, impondo sempre sobre ti aquilo de que não gostas, ou não suportas. Mas tens de suportar todo o peso d’Ela, porque a Sombra-que-caminha é como a noite fria que te envolve em névoa gelada, fazendo-te gemer em calafrio fino.

Ela faz com que te sintas em desespero azul. Ou branco, às vezes branco. Outras vezes, na aridez pura do silêncio agreste, presente n’Ela mesma. Porque Ela se comunica contigo pelo silêncio, unicamente. Só isso.

A hora da verdade...

Se acaso pretenderes livrar-te d’Ela, deves primeiro despir-se do desespero azul, ou branco, às vezes branco, e procurares por ti mesmo naquilo que é puro azul, ou puro branco. Podes também consegui-lo em se libertando do desespero branco, ou azul, às vezes azul.

Mas para te libertares do desespero azul, ou branco, às vezes branco, é preciso que ouças, nas sombras da noite, o grilo. É o que precisas para que despertes ao desejo azul, ou branco, às vezes branco, e então te encontres além d’Ela, a Sombra-que-caminha. É a condição: encontrares tua própria vida na pureza da sombra pura azul, ou branca, às vezes branca, para, para sempre, te livrares d’Ela, a Sombra-que-caminha. Porque o para sempre não existe. Porque o para sempre é branco, ou azul, às vezes azul. É isso.

domingo, 20 de março de 2011

Ela...

...e aquilo que eu mais temia aconteceu esta manhã.
Descobri hoje que Ela está de volta. Ela, a Sombra-que-caminha. Para quem não se lembra d'Ela, no próximo sábado contarei a história d'Ela, a Sombra-que-caminha.

sábado, 19 de março de 2011

SEMPRE HOJE SEMPRE

Alguém disse um dia: “se tivesses estado ao meu lado, estas páginas jamais teriam sido escritas, porque SER me teria ocupado bastante...”
E eu digo: se não tivesses me telefonado, estas linhas jamais haveriam sido escritas, pois a busca infeliz pelo Grá me teria ocupado bastante. Também estaria muito ocupado em me esconder d’Ela, a Sombra-que-caminha. Mas estou SENDO.

Esse teu olhar, como disse Tom Jobim, quando encontra o meu, fala de umas coisas que eu nem posso acreditar...

Hoje o dia amanheceu mais lindo ainda do que os outros, porque ontem te vi, e pude sentir a presença do seu corpo próximo ao meu, pude ouvir o som da sua voz aos meus ouvidos. Pude sentir a sutileza de um início de algo que poderá ser muito lindo. Assim é o nascer dos amores. Tão lindos, tão brancos, tão puros. Doce é pensar em você o tempo todo, e mesmo à distância sentir sua presença e o toque de teu coração.

Hoje é dia de lembranças do que vivemos ontem. E lembrar-se é viver pela primeira vez o que já foi vivido um dia pela primeira vez. Que maravilha que choveu ontem e também hoje. Que haja chuva sempre!!!

No dia de hoje...

Quando conhecemos alguém, como é bom viver cada um dos momentos! Confesso que a única vez em que havia me ocorrido isso foi há muitos anos, quase dez anos atrás. Mas desta vez está sendo bárbaro, porque estou, pela primeira vez na minha vida, sendo correspondido. A euforia, o entusiasmo e a alegria são coisas muito grandes que acontecem a todo momento. É a emoção de quando o telefone toca, a palpitação de quando o celular dá sinal de mensagem recebida...

Mas também há o medo. Medo de quê? Medo talvez de perdê-lo, medo de eu não conseguir corresponder ao que ele procura em mim, medo de o decepcionar, porque por mais que nos esforcemos para atender aos desejos do ser amado, há o fato de sermos seres humanos ainda falíveis. Então quando o telefone demora a tocar, vem a ansiedade e o receio de ele não querer mais saber de mim. Mas isso faz parte, porque o nascimento do amor é um processo que deve ser construído.
A ponte que existe entre o agora e o futuro do agora é construída aos poucos.
A vida é linda...
E ele, mais ainda, em todos os sentidos!

Ontem ele também me abraçou. Que sensação maravilhosa essa de o sentir junto de mim! É uma sensação que não tem tempo, não tem espaço nem conceito, pois está circunscrita na própria natureza íntima nossa, vinda do mais profundo instante. É como se estivéssemos a um passo de enxergar a face iluminada do Grá.

E como foi bom dormir ainda com a lembrança daquele abraço maravilhoso e sincero, abraço de carinho... Esta é a maneira que temos de nos livrar d'Ela, a Sombra-que-caminha. Feliz mais este dia feliz.

Não sei que sensação é esta de agora, mas sei que é uma sensação estranha. Não tão estranha, porque parece que eu já senti isso em algum momento...


Está muito parecido com uma sensação de quando Ela se aproxima de nós. Sim, Ela, a Sombra-que-caminha. Espero que não seja ela, porque se for...

Cantares do Sem Nome e de Partidas - Hilda Hilst

IV
E por que, também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.

É pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.

Penitente e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.



V

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Cemitério das Patys

Enterradas por Ciro M. Costa



Lá não tem dinheiro
Não tem ouro ou iates
Não tem rico fazendeiro
Lá é o Cemitério das Patys

O que acontece com uma Paty
Quando ela envelhece?
Arruma emprego? Vai para o abate?
Morre. E enterrada onde ela merece!

Túmulos enfeitados
Com diamantes de 18 quilates
Velas de ouro floreado
Isto é o Cemitério das Patys

O cemitério é muito luxuoso
Cobram caro na entrada
Homem só entra estiloso
E mulher de roupa dourada

Música emo e muita animação
Um poodle mimado que late
Caviar, whisky e camarão
Assim lá é o velório de Paty

Na madrugada tem mistério
As mortas se levantam faceiras
E nesse chique cemitério
Ouve-se o chacoalhar de pulseiras

Nessa balada misteriosa
Ouve-se mp3 pop também
Tem até celular cor-de-rosa
Trocando idéia com o além

E você? Já viste?
Pobres dizem disparates
Mas não importa, ele existe
O enigmático Cemitério das Patys

quarta-feira, 2 de março de 2011

Askzar 111 - Parte 1 . Invasão Branda

Naves passaram pelo céu de Askzar agora.
Percebi-as olhando para elas estático.
Iam em velocidades inimagináveis ao centro do planeta.
Daí então , peguei minha mochila e minha arma , saí pelos desfiladeiros.
Tranquilamente pensei que nada fossem fazer.
Askzar se encontrava em uma nova era.
As tropas planetárias askzarianas estavam em preparo para a guerra.
Como cães de guerra e bruxas satânicas.
Lá foram os soldados para o rio de ferro.
Era uma noite tranquila eu e meu regimento.
Avistamos as mesmas naves.
Pousaram na colina discórdia 111.
Todos nós corremos gritando em direção à elas.
Disparando tiros de plasma atacamos.
As naves com aparência inimiga ... ficaram estáticas.
Daí então desceram seres normais como nós.
Vieram todos em missão de paz.
Askzar precisava deles ... afirmaram aqueles homens...
Essa foi a parte da invasão branda esperem por capítulos emocionantes...dessa vez eu termino a novela interplanetária.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crônicas da Cripta – Disse ou não disse?

Dito (ou não dito?) por Ciro M. Costa


Olá, leitores que ainda estão aqui, e também olá para os que já se foram. Sou Clarilda, a adolescente que morreu anos atrás de frente o computador, e agora está presa na internet, contando histórias.
Hoje vou contar a história de um casal muito interessante, os Ribirots. José Ribirot e Maria Ribirot viviam felizes em sua casa, que ficava naquela esquina perto daquela rua. O bairro, claro, era o daquela cidade, perto do viaduto.
No entanto, é preciso dizer que nenhum casal é 100% feliz, e sempre há as diferenças. Com esse, não era diferente. Muitas das vezes, José Ribirot e Maria Ribirot discutiam sobre coisas que um havia dito dizer, e o outro havia dito não dizer (espero que tenham entendido).
- Mas, querida, eu já tinha te avisado sobre isso antes. Você se esqueceu?
- Não, querido! Você não disse. Você pensa que avisou.
- Não senhora! Eu tenho certeza!
- E eu tenho certeza que você não avisou.
No começo fora apenas uma pequena discussão. É engraçado, leitor, dizer que “discussão” foi pequena, sendo que a palavra tem um “ão” no final. Mas é verdade. Não foi um “discussinho”, e sim uma “pequena discussÃO”.
Mas depois, aquilo foi virando rotina, e José Ribirot ficava cada vez mais estressado, quando sua mulher fazia algo contrariando algo que ele já dissera. E ela dizia: ele não dissera.
- Mas, querida! E já tinha te avisado! Como pode?
- Querido, querido... você só pode estar ficando maluco. Você não me avisou nada!
Mas José Ribirot tinha certeza absoluta de que tinha avisado. Chegou a se observar mais quando dava avisos à esposa. Tentava marcar mais aqueles momentos de avisos. E mesmo assim, ela sempre dizia que ele não havia avisado. E o pior de tudo, é que ela realmente não parecia estar mentindo.
José Ribirot chegou a filmar um momento em que dava um aviso para Maria. E nem assim deu certo...
- Mas, querida! Está tudo aqui filmado! Viu? Eu tinha te avisado!
- Não, meu querido. Pra mim você não avisou nada.
- Mas...
Então, nesse momento dos 3 pontinhos depois da palavra “mas”, José Ribirot teve a resposta. Uma pessoa entrou na sala, mexendo um espanador. José levou um susto de cara, pois parecia algo impossível, mas ao mesmo tempo teve todas as respostas que queria.
- Maria? – disse Maria Ribirot.
- Sim? – respondeu Maria Ribirot.
- Por acaso foi para você que o José avisou sobre o que está no vídeo?
- Sim. Foi para mim. Eu já estava avisada sobre isso, José, meu querido. Me desculpe.
José estava pasmo. Como aquilo era possível? O tempo todo ele estava certo sobre seus avisos... só não estava avisando para a mesma Maria Ribirot sempre!
- C-como pode isso?? – ele perguntou. – Vocês são gêmeas?
- Não. – respondeu uma Maria. – Somos duas Marias Ribirots, com o mesmo nome, sobrenome, tipo sangüineo e até CPF. Já se esqueceu, José?
- É! – disse a outra. – Que tipo de pergunta é essa que você está fazendo?
- E-eu... – disse José, ainda confuso. – Que história é essa?? Todos esses anos... eu nunca soube que morava com duas pessoas iguais!!
Então, ambas disseram:
- Mas, querido! Nós já tínhamos te avisado!!
Eu sou Clarilda, e não se esqueçam: cerca elétrica e tranca nas portas não impedem fantasmas de entrar na sua casa.