No entanto, esse seria um dia especial. São Bililo não se esqueceria facilmente dele, e nem daquele homem que acabava de chegar.
- Olá.
- Olá. – disse São Bililo. – Qual é seu nome completo?
- Eu sou Rito de Cássio.
- Só um instante...
São Bililo digitou algo em seu notebook. Aquela feição de santo acostumado com a rotina se transformou um pouco.
- Pode repetir seu nome, por favor?
- Rito. Rito de Cássio.
Novamente, digitou mais algumas palavras, e achou ainda mais estranho.
- Engraçado... não consigo achar seu nome aqui. Benzinho, me fala seu nome e não apelido.
- Desculpe, mas meu nome é realmente Rito de Cássio.
- Ceeerto, baby boy. Como se chamava seu pai?
- Priscilo de Cássio.
- Huuum... seu pai consta na lista. Aliás, ele já está aqui no céu há 13 anos. Sua mãe era a Dona Ricarda?
- Isso mesmo!
- É, as informações batem. Mas não consigo encontrar você. Se for o diabo disfarçado querendo entrar aqui, pode esquecer, caboclo!
- Eu não sou o diabo! Sou Rito de Cássio!
- Bom, vou ter que apelar então para os arquivos diretamente da Terra. Vamos ver o que encontro. Já viu quando uma pessoa chega pra você e fala: “Fulano, você não existe, hein?”. Parece ser o seu caso, hahahahahahahhaha!!!
- Era pra rir?
A descontração era somente para disfarçar o medo. Na verdade, esse tipo de coisa nunca havia acontecido no Céu, e São Bililo estava com medo de levar ‘chumbo’ do “pessoal de cima” pela desorganização no cadastro.
- Encontrei! – disse São Bililo, um pouco aliviado. – Você tinha Facebook e chegou a postar algumas coisas no Twitter. Vai continuar usando ou posso fechar a conta aqui?
- Depende. Vou poder continuar usando?
- Só para ler, sem postar nada.
- Então pode fechar.
- Senha?
- Rito3955.
- Hum... prooonto, balofinho! É estranho, você tem muitos arquivos na Terra... mas no meu sistema não consta NADA! Nem seu nascimento, sua árvore genealógica, seu falecimento... parece que você foi esquecido pelo Céu!
- Nossa! Não sei se fico surpreso ou decepcionado com vocês! Como podem me esquecer? Justo eu?
- Por que? O que fez de tão especial, gordinho sapeca?
- Oras, eu sempre fui uma pessoa honesta, trabalhadora e com todas as obrigações em dia! Nunca fiz nada de errado!
- Nada?
- Nada!
- Nada mesmo?
- Nadinha!
- Certo, bacana... – disse São Bililo, com ironia. – Deixe-me ver aqui... você era pedreiro. É isso?
- Sim, e dos bons!
- Realmente. Aqui consta que você era um pedreiro bastante honesto. Sabia calcular perfeitamente a quantidade de cimento e tijolo seria gasto em uma casa. E nunca sobrava nada? Não deixava sequer cair um pingo de cimento no chão??? Espere aí, o arquivo está com algo errado...
- Não senhor! Está tudo certo!
- Ah, pára! Vai falar que nunca fez nada errado em uma construção? Não deixou nem um azulejinho torto???
- Nunca!
- Uma janela fora do lugar, por poucos centímetros?
- Não!
- Um buraquinho na parede, jovem? Só pra entrar formiga?
- Jamais!
São Bililo não acreditava, mas os arquivos não mentiam. Ligou para a filial do Céu na Terra, e eles confirmaram tudo. Foi mais além: ligou para o celular do Diabo, e este disse que também nunca ouvira falar de Rito.
- Uma pessoa tão boa assim, agradeço a Deus por não saber da existência. – disse o chifrudo.
“Pro Diabo agradecer a Deus, então a coisa é séria!”, pensou São Bililo.
- Éééé... – disse ele. – Eu não entendo, ao mesmo tempo que tudo aponta que você esteve na Terra, nada aponta que você exista para o Céu ou Inferno. Como uma pessoa tão boa e honesta pode ter sido esquecida por nós?
- Eu quem deveria perguntar isso. Como podem ser tão desorganizados?
- Não é esse o caso, batutinha! No começo pensei que fosse um erro meu, mas o sistema aqui nunca falha. E pense bem: você foi um pedreiro que sempre fez tudo certinho, sem nunca relaxar ou deixar algum servicinho mal-feito! E além diss... espere aí!!!
- O quê?
- Rá! Achei um deslize seu, garotinho maroto!!!
- Que deslize? Onde?
- Aqui ó! Ó! Espia aqui, bobo! No dia 02 de janeiro de 2011, ó! Você quebrou um tijolo! Rá!
- É verdade... Mas pedi pro dono da casa descontar do meu pagamento!
- Aaaah, então está explicado! Como sempre, o Céu não se enganou!
- Por que?
- Você, realmente, NÃO EXISTE!