domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sobre Sapos e Borboletas


Diz a lenda que girino e lagarta apaixonaram-se perdidamente. Na margem da lagoa havia um arbusto que espalhafatava seus galhos até quase tocarem a água. Ali aquelas criaturas se conheceram. Ali aconteciam os encontros, iluminados pelo sol da manhã ou ensolarados pelos raios da tarde. Ali foram felizes como jamais seriam em qualquer outro tempo ou espaço possível.

Assim foi até que notaram as mudanças – descobriram-se em mudança. A lagarta, agora, falava pouco, ocupada que estava em fechar-se no casulo. O girino, por sua vez, falava menos ainda, envergonhado com as formas bizarras que dominavam seu corpo.

Tristonho por ver a amiga escondendo-se em si mesma, chegou o dia em que o girino decidiu recolher-se a qualquer lugar que também o escondesse. Foi para um lado bem oposto da lagoa e lá ficou, vendo as formas cada vez mais estranhas que saíam em (de?!) si.

A lagarta, por sua vez, morria de saudades do girino, mas nada podia fazer por enquanto, trancada que estava na prisão que ela própria havia construído – com tanto esmero que nem pôde dar a atenção devida ao amigo.

Dias se passaram e o girino resolveu tentar uma reaproximação – já não aguentava mais ficar longe da lagarta. Desolado, entretanto, percebeu que sua amiga havia simplesmente desaparecido. No galho em que ela costumava esperá-lo só havia agora uma casca esfrangalhada. O girino, então, voltou ao lado oposto da lagoa decidido a nem mais sair de lá.

Precipitado que foi - se tivesse esperado um minutinho de nada, teria encarado uma linda borboleta cheia de tamanhos e cores que morava naquele galho. Somente para se alimentar de néctares é que ela voava dali, e nunca se demorava, posto que passava os dias olhando para a lagoa com a esperança de re-encontrar seu amigo anfíbio.

Tempos depois, o girino já era sapo e havia saído de dentro da lagoa, mas jamais pulava para muito longe, pois ali vivera os momentos mais lindos de sua vida e ainda nutria o desejo forte de rever a lagarta um dia.

Num de seus voos em busca de nutrição, a borboleta cheia de tamanhos e cores se deparou com aquele bicho tão diferente e cismou que algo nele lhe era familiar. Aproximou-se até encará-lo nos olhos e exclamou, cheia de certezas, que o conhecia de lugar qualquer que fosse.

Faminto, o sapo nem deu importância para as palavras da criatura lepidóptera que esvoaçava à sua frente. Piscou para a borboleta cheia de tamanhos e cores que nunca tinha visto iguais sem nem perceber o gesto que fazia. Em seguida, lançou sua língua anfíbia e a devorou com ânsia e brutalidade. Regalou-se com todas as sílabas que a palavra é capaz de carregar!

E, desde que encontrara as cascas no galho e enquanto houve-se em vida, nem mesmo um único dia se passou sem que ele se sentisse triste e ressentido por considerar-se abandonado pela sua namorada de infância...


sábado, 6 de fevereiro de 2010

O APRENDIZADO DA ROSA

Pessoas costumam saber desde a infância que a Terra é redonda, mas poucas conseguem sentir como os pensamentos são redondos. Tanto a Terra quanto os pensamentos são como o útero. O útero é redondo. O útero cria. O pensamento cria. A Terra cria. O útero aquece.
O útero aquece.
Percebo o útero como um cão percebe a rosa. A rosa vem do útero: o botão uterino abre-se, enchendo de beleza os prados. O homem não sabe do útero, mas este existe e está em todos os lugares. A visão que tenho do vaso solto sobre a estante faz-me lembrar do útero. Há um útero sobre minha cabeça agora. E o útero também poderá ser quadrado, depende isto da atitude de quem o sente como um útero. As máquinas também vêm do útero, nascem do pretexto de se criarem e isso ocorre a partir de um mesmo útero. O útero vê coisas.
O útero vê.
O útero sabe que há histórias que começam com dias vividos, e que outras começam com duas pessoas. Mas esta história que escrevo talvez comece com o útero somente, pois o útero é só, está sozinho no tempo, são as pessoas que o procuram. A cerâmica é queimada no útero, quente e incandescente útero de milagres que cercam a humanidade por séculos antes do primeiro útero, se é que existiu o primeiro útero. É que existir algo antes do útero é incerto. Nem o ovo. O ovo veio do útero. As palavras ditas por todos nós atravessaram o ovo, mas na verdade vieram do útero.
O útero é como vidro. Nele, as coisas se quebram para depois se juntarem novamente, formando outras coisas. O vidro existe para sustentar o útero. O útero é como o ovo, só que um pouco mais completo, pois no útero há o tudo. Tudo que é. Simplesmente é, e não há explicações para isso.
Encontro-me de repente com os lugares que me têm. Tal encontro é sempre trazido por alguma (plena) sinceridade, cheio de misteriosos martírios, repletos de elementos trazidos por mim agora, porém é como se fossem de quando eu não existia. E o útero está presente, sempre. Água vinda de atitudes sensíveis, que sensibilizam meu coração cada vez que escrevo para meu interior, o mim mesmo, desfiando a alma como uma rosa desfia o tempo de si mesma, enquanto ainda concentra sua força dentro do útero. A rosa também existe para mim.
Agora vejo o útero por um outro ângulo e consigo percebê-lo como um útero, regato das águas cristalinas que leva a vida até cada grão de areia, a fonte da sabedoria terrena. Todavia essa líquida e profunda fonte consegue levar ruína aos sem-impressão, pois não foram capazes de perceber a volatilidade do útero. Eles percebem o ovo, mas não chega. O ovo é incompleto. O ovo cria, não tem, entretanto, a impressão; ele é branco. O útero não possui cor nenhuma, ele pode abrigar todas as cores ao mesmo tempo. Um dia Clarice disse que amava o ovo, mas quem ama o útero consegue alcançar o Grá. O ovo pode ser branco, mas o útero não possui cor nenhuma, por isso ele está mais próximo ao Grá.
Sinto um oco no interior do peito cheio de receio e logo percebo que é a presença do interior do útero em meu interior. De repente sinto - e isto é correto sentir - também o amor pelo começo. O começo de quê? Não sei ainda, só sei que é o começo. Talvez seja o começo da vida que eu gostaria de ter. Não sei que começo é este. Clarice dedicou ao ovo o começo. O que sei é que o útero existe e é isso o que importa. O útero me vê e não o velo com meus olhos, pois não o vejo. Velo o útero com meu corpo. Ele possui a permissão de me ver. O útero pode ver o que lhe convier. Os outros é que não conseguem ver o útero como ele é, porque ele muda a cada momento. Acabo de dizer isso e o útero já mudou mais de cem vezes. Não se sabe como o útero é na realidade porque a realidade não existe na realidade. A realidade é apenas um reflexo, uma aparência de algo já incerto. Por isso, ver a realidade é ver o incomprovável.
O ovo se parece com o útero não na aparência, já que o útero não a tem, mas na fonte. E a fonte nasce, renasce, morre e pré-nasce. Devo esforçar-me para não deixar os pensamentos perderem a redondez de suas formas, caso contrário perderei o poder do útero. O útero vem cada vez que o chamo, e daí torno-me a abstração do dia em que fui alguém sem ser. Voltei a ser. O útero come.
O útero come.
O útero alimenta-se de tudo o que pode ser fixo e dificultoso como um instante de prazer. A avenida onde passo todos os dias precisa do útero. O útero é imenso, seu tamanho é indiscutível.
Do útero bebe-se para fazer acontecer, levando nuvens plácidas para aquém das montanhas.
Sinto o útero atrás de mim, mal viro-me e deparo-me com o nada. O útero necessita ocultar-se. Não sou eu, ele o quer. Tento retroceder para obter tudo de novo, mas não sou eu que tem a chance, é o útero que a tem. Ele quer assim.
Paro a escrita e procuro sentir o vento que entra pela janela a balançar meu rosto. Cabelos. A chuva então vem penetrar em meus ouvidos musicalmente (a chuva e os trovões também vêm do interior do útero), e de repente o útero é tudo para mim.
Diante de todo o mistério que encanta minha experiência, é o útero que também cria minhas desventuras. É ele que ordena que eu pranteie. Tenho mágoas de mim, sou semelhante a mim, não posso ficar sem mim mesmo, e a culpa de eu me sentir assim é do útero. Esta é, talvez, a principal diferença entre o útero e o ovo. O ovo não pode fazer o mal porque não tem personalidade. O útero tem. O útero sabe que às vezes faz o mal, mas não é obrigação dele fazer algo para que isso não aconteça. A função do útero é criar. Criar o eu e o tu. O ovo veio para criar o imparcial, portanto o ovo cria o sem-nome. O ovo cria o que pode ser. O útero, o que é. Eu ainda não sou para mim.
Desvelo a alma cada vez que percebo o útero a rondar meu espaço. É do meu desejo conhecê-lo. Todavia, o útero é intocável. Consigo tocar o útero como toco em meus sonhos, sentindo apenas o vento da tarde invadir-me. Então escrevo. O útero vem até mim. Sinto-o.
Sentir o útero é tocar o céu com o dedo em busca das estrelas, e ver a lua se extinguindo em forças de prazer para sugar da Terra a mesma sensação dada pelo útero aos humanos. O útero é a lua do mês de março. Quando conheci o ovo descobri como poderia vir a ser o útero. A Terra é como a fonte do útero.
Quando vi o céu pela primeira vez, conheci o formato provável do útero. Então, aprendi o segredo de mim. O útero passeia em torno de mim enquanto escrevo. Então escrevo mais ainda. Descobri que descobrir a existência do útero é querer escrever por toda a eternidade. As palavras dadas de presente sendo retiradas do centro exato do útero. O útero também destrói.
O útero destrói.
Quando o mundo deixa de perceber a grandeza do útero, a grandeza do espaço evapora o mundo. Mas o útero não sai do mundo onde vive. O mundo é que sai do interior do útero, carregando o pó árduo da humanidade vinda do útero. A música de todo o mundo é composta no útero. Somos todos do útero.
Engano daqueles que pensam que (e esteja certo de que a maioria pensa assim) que o útero criou o masculino e o feminino. Foi o ovo que criou o masculino e o feminino. O que o útero criou foi o masculino-feminino. Absoluto. Mas o útero também cria tristezas.
Embora o útero tenha sempre a melhor das intenções, foi ele quem criou a água bebida pelos apaixonados. Portanto, os amantes são aqueles que bebem a água vinda do útero. É o útero que ordena que as pessoas se apaixonem. Do útero vem o amor. E é por essa razão que o útero gera também o Não-Ter. O útero gera o não-ter-esperança. Se soubessem da existência do útero, muitas pessoas o teriam amputado, arrancando de dentro delas o desespero. Por isso a rosa é feliz, porquanto vem do útero, mas não o possui. Destarte, a rosa constrói.
A rosa constrói.
Da rosa vem a felicidade. A felicidade nasce de dentro da rosa que não tem sementes, pois se as tiver, não haverá nascimento. É isso, a felicidade não pode ser criada a partir de sementes. Também não pode ser criada pelo útero ou pelo ovo. A rosa sem sementes é que cria a felicidade. A felicidade é criada a cada instante e o material utilizado para sua criação é a própria visão da rosa. A rosa que é vista através das janelas.
A rosa é, por essa razão, superior ao útero e ao ovo, porque ambos criam aquilo que já está pronto. A rosa não. A rosa não cria nada; é da sua imagem que surge o quase-imperceptível-instante. A rosa faz as pessoas sentirem-se desejosas de si mesmas, mas a felicidade vinda de sua imagem só é percebida por aqueles que forem capazes de se descobrirem, não como seres humanos, mas como si mesmas. Atingir o Grá pela rosa é a maior conquista humana. Quem atinge o Grá pelo útero o perde na primavera. Atingir o Grá pela rosa é eterno, pois a rosa faz parte do Grá.
A rosa oferece o que não possui de si. É por isso que ela é superior ao útero e ao ovo. Da rosa vem a felicidade, não o amor. Da rosa vem a amizade. A amizade é eterna. O amor não. O amor é criação do útero.

sábado, 30 de janeiro de 2010

A FESTA

Não era muito grande o bar, nada que se assemelhasse a algo pomposo, mas era por si só um ambiente agradável, com quadros nas paredes, umas poucas mesas do lado de dentro e mais um bocadinho do lado de fora. Dois ambientes, não por conta de algum luxo esperado, mas por exigência do tamanho do local, casa antiga transformada em bar, ou em lanchonete, ou em restaurante. Cozinha apertada mas produtiva. As bandejas rodavam por todos os cantos. Num outro canto o garçom pensativo e preocupado com o horário de ir embora. O movimento era de morte, pessoas de diversos locais da cidade invadiam o pequeno bar, senhoras com seus cigarros em meio a copos e copos de cerveja. Conversavam sobre trabalho, roupas e empregadas domésticas. Uma delas falava mal da costureira. Outra havia pegado o marido com a madrasta, pediu mais cerveja. Homens conversavam sobre coisas estranhas, inclusive negócios. Alguns vinham da bebedeira diurna, era sábado. Era noite. Ele chegou.
Ele chegou, primeira vez no bar, mulher e dois filhos o acompanhavam. Era triste o quadro, os olhares redondos. Ele também era redondo, crianças pequenas, magras e quietas, mal conseguiam conversar porque tinham sono. Haviam acabado de sair de uma festa de criança, local onde todos comem de todas as coisas que há em festas de criança. Mas mesmo depois de comer de todas as coisas que há em festas de criança, estes queriam provar da especialidade servida no bar: batatas recheadas, todas grandes, suculentas. Na Roma antiga, soldados marchavam para a conquista de terras. Assim eles marcharam em busca de batatas enormes, com recheios enormes e também sabores enormes. O bar lotado. O garçom atendendo, a hora não passava. Calor insuportável.
As crianças queriam ir embora, mas ele esperaria o tempo que fosse preciso para ter acesso àquelas batatas, todas lindas e grandes, vinham em uma tigela de barro. A encomenda deles demoraria a ficar pronta, havia muitos clientes na fila. O calor aumentava. Na cozinha todos os fornos ligados na tentativa de agilizar o trabalho e satisfazer clientes, embora fornos não saibam que clientes esperam. Calor.
Ele sentia um calor que vinha de dentro, intenso, parecia que tudo pegaria fogo, a começar por ele mesmo. Em volta da mesa bandejas circulavam ágeis, e ele com pressa, as crianças sonolentas e com pressa, a esposa, sem saber o que pensar, não pensava nem dizia nada. E ele com calor, muito calor, precisava lavar o rosto, refrescar-se. Pediu licença à esposa e às crianças, iria ao banheiro do bar porque bares não possuem toaletes. Bares possuem banheiros. Ele havia gostado do banheiro, eram individuais, um para ele e outro para ela. O calor ainda era insuportável, talvez porque comera de tudo na festa. Ao sair do banheiro encontrou o garçom e pediu-lhe que o desculpasse, pois sentira pequena indisposição no banheiro. “O bar possui um belo banheiro”, disse ele ao garçom, que sorriu enquanto o cliente voltava para a mesa.
Ao chegar à mesa, viu que as crianças dormiam juntas, uma abraçada com a outra. Chegou a ficar com pena delas, mas logo estariam em casa. As batatas eram mais importantes no momento, haveria muito tempo para as crianças dormirem quando chegassem em casa. Parecia que o calor já não era tão insuportável, com certeza o asfalto esfriara, pois já eram onze horas da noite e além disso quase todos os clientes já haviam ido embora, restando somente eles no bar. Finalmente as batatas chegaram, cheirosas e grandes, quentes, duas recheadas de frango e duas de calabresa. As de frango para as crianças, mas estas dormiam, inocentes e abraçadas, o sono era-lhes mais importante que batatas, já haviam comido doces na festa e para crianças doces são mais importantes que batatas, mesmo que se tratassem de batatas.
Ele começou a comer. As batatas, um sabor fantástico, forte e ao mesmo tempo sugestivo. A esposa também comia calada, encantada com cada bocado do prato. O garçom sentia sono, já era meia noite e aquele não era um bar comum, pois fechava cedo. Depois de saborear a batata recheada com calabresa, ele começou a comer as de frango, antes destinadas às crianças. A mulher disse que seria melhor que mandassem embrulhar para levarem para casa, as crianças sentiriam vontade no outro dia. Mas ele não concordou, poderiam voltar no outro dia, o que importava era acabar com aquelas batatas. Havia na mesa duas batatas de frango que eram das crianças, as duas grandes e suculentas, e ele comera as duas. A esposa comera a sua de calabresa, ele comera a dele e as das crianças. Eram deliciosas. O garçom já guardava as mesas do lado de fora.
Finalmente, ele terminou sua refeição com um semblante de satisfação por tudo o que acontecera naquele dia, àquela altura interessante. As crianças, já debruçadas sobre a mesa, mesmo dormindo, cansaram-se da mesma posição. Pediu a conta ao garçom, este já alegrando-se com a ida do último cliente. Pagaram e saíram, cada criança no colo de um. Abriram o carro, colocaram as crianças lá dentro e foram embora. E ele feliz, porque comera e depois que fora ao banheiro o calor passara. Ela feliz porque comera e dentro em breve estaria deitada, dormindo. No bar, o garçom feliz porque fechara as portas, dentro em breve estaria em casa. A cozinheira já preparava uma porção para levar para casa, uma batata enorme, mais enorme que as servidas no bar, e estava também feliz, pois comeria acompanhada do namorado e cervejas, muitas a noite inteira. No final da noite comeria uma cocada japonesa que ganhara de uma amiga chamada Dora, pois ouvira que doces ajudam a curar bebedeira.
O garçom também arrumara uma batata para levar para casa e mudara de roupa. Estava sonolento, a noite havia sido bastante tumultuada e além disso não gostava de atender clientes, pois muitos eram chatos e ignorantes. Chamou um táxi e dirigiu-se para o banheiro. Lembrou-se do homem que fizera elogios ao banheiro daquele bar. Abriu a porta e o mundo abaixo de seus pés parecia deslizar, sentiu vontade de desaparecer, algo em seu mais profundo âmago desnorteado, um amontoado das mais recônditas tristezas da vida afloravam de repente, pois nunca presenciara tal cena, tal cenário, tal novela, tal tudo. Somente pôde lembrar-se que aquele homem que havia se desculpado pela indisposição que sentira fora o último cliente a entrar no banheiro, mas só agora passou a entender a que tipo de indisposição aquele homem redondo de olhares redondos se referia, nunca vira nada como aquilo. Foram apenas pouco mais de dois segundos, porque fechara a porta rapidamente dado o horror que sentira, mas vira o suficiente.
E todas as peças do banheiro, na verdade não as via mais, pois estavam todas cheias, todas lotadas, o chão tornara-se o que não deveria tornar-se, mesmo em sua condição de chão de banheiro. O calor havia sido grande, e a festa de criança, deve ter sido maior ainda.


GIOVANNI DE PAULA OLIVEIRA

domingo, 24 de janeiro de 2010

Fantasia


Este ano seria diferente. Ah, seria mesmo. Há dias sentia que uma mudança radical e irreversível aconteceria em sua vida. Agora, em pleno carnaval, percebia que essa mudança precisava acontecer imediatamente. Não suportava mais tanta angústia e solidão. Era necessário, era fundamental, era irremediável que se transformasse.

Todo ano era a mesma coisa: ansiava pela chegada do carnaval, confeccionava a mais linda fantasia, cantava, dançava e pulava nos bailes da cidade e, por fim, quase morria de tristeza quando a festa se acabava. Toda a expectativa e a agitação dos dias de folia eram substituídas por um vazio imenso e insuportável.

No início, acreditava que a fantasia tinha uma influência mística nos acontecimentos da festa e no seu próprio destino, por isso já havia se vestido de fantasma, palhaço, imperador, marinheiro, pirata e todos os super-heróis de que pôde se lembrar ao longo de todos esses anos. Experimentou cada uma dessas fantasias com atenção e sinceridade, tentando descobrir qual havia lhe trazido a melhor sorte.

Agora, no entanto, reconhecia que todos os carnavais de sua vida foram iguais, independente da fantasia que usou em cada um deles. Pensando bem, os carnavais não foram exatamente iguais: na verdade, a situação foi se tornando desagradável aos poucos, embora nos últimos anos tenha sido pior, muito pior.

Na última década, fantasiara-se apenas de pierrô e de arlequim, convencido de que a beleza poética da comédia italiana lhe inspiraria a viver aventuras e paixões. A despeito, entretanto, de toda a sua crença na energia das personagens que vestia, aconteceu justamente o contrário: sofreu decepções inesquecíveis e traumáticas, que lhe faziam sofrer durante todo o resto do ano.

Neste ano, porém, seria diferente. Haveria uma mudança. Operaria uma transformação inimaginável em sua vida. Tomaria uma atitude que mudaria para sempre seu destino. Celebraria o carnaval mais incrível e fascinante de toda sua existência e, finalmente, poderia ser feliz.

O carnaval deste ano seria o melhor de todos, especial como sempre deveria ter sido. Não iria se vestir de palhaço ou pirata; tampouco de pierrô ou arlequim. No carnaval deste ano, definitivamente, ele seria colombina.


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

É tudo complicado...

(Por Bruno C. O. Carvalho)

- O gordão bem humorado levava tudo na esportiva, foi o melhor aluno da turma de Educação física. E todo bom professor de educação física é gordo.

- O filho da puta (outro, pois a história do gordão já acabou) achou o celular, quebrou o chip e saiu pelas ruas para vender o aparelho. O interessante é que achou outro filho da puta que comprou. Ambos terminaram o dia achando que haviam tido sucesso nos seus dias.

- O mundo anda bastante complicado, deveras complicado. Tão complicado que a coisa está muito simples. Coisas simples demais não exigem nada e quando não temos a exigência de nada, perdemos o prumo. É como nas redações que nossas professoras faziam nas escola: "Fale sobre nosso presidente", beleza era só falar, mas quando o tema era livre a coisa se perdia, pois liberdade demais dá trabalho.

Você é o líder da sua vida! Você não depende de ninguém! – Porra, e agora o quê eu faço?
- Descomplicar é a alma do negócio. Duas frases que ouvi e que me fizeram pensar:
“Os que gritam não são ouvidos”, e “Os nervosos e irados não ouvem a voz de Deus, por isso é preciso se acalmar”
Hoje é dia de paz, de alegria... MAS PRESTA ATENÇÃO NO TEXTO pooooooooorrrrrrrrrrraaaaa!

- Liberdade em demasia é o mesmo que ser mendigo. Vamo trabalhar moçada! Pra poder se fazer pensar que é livre.

O cara que me mandou a puta que pariu semana passada me ensinou muito mais que o Senhor culto que sabe tudo das escrituras.
Eu não gosto do ser-humano, eu tenho milhões de defeitos, você também, seu pai, sua mãe... É, eu não gosto do tal de ser-humano, mas adoro a humanidade.

- No bar, ouvi um cara dizer que morava sozinho: Eu moro sozinho, só eu e mais ninguém! Nem Deus nem Jesus Cristo! Eu não acredito nem em Deus muito menos em Jesus! Se Jesus era filho de Maria e Maria antes de tê-lo era virgem, José er a impotente, para começo de conversa. Se ela era casada com ele, por que não tiveram relações? Sem falar que depois ele foi corno e ainda não era pai de Jesus...

Eu acredito em Deus, e também em Jesus. Mas não é por isso que devo discordar dele e abrir um fórum de discussão em pleno boteco. Tenho a alegria de minha liberdade moderada, que me permite rir desta outra faceta da vida. Ele (o cara do bar) não vale nada, eu também não. Mas essa é a beleza da humanidade!

- Ri demais da história do cara que queimou 10 hectares de terra no puteiro! O que que é isso? Onde estamos! Ahahahahahaah!

Quando eu era criança eu pulava na piscina, independentemente da água estar gelada ou não. Jogava bola descalço e ainda não me preocupava com dinheiro. Eu era criança.

Hoje faço de tudo, mas acho tudo complicado. Quero conhecer tudo antes de viver.
Caros Senhores e senhoras, nada é complicado mas ao mesmo tempo é, porque o simples pode ser complicado. Tem gente que gosta do complicado, tem gente que gosta do simples, tem gente que gosta de tudo, mas tem gente que não gosta de nada. Tem gente que adora brigar, tem gente que não gosta.

Eu já escrevi textos complicados demais, mas este não é. Este é um texto solto, sem rasuras e sem correções gramaticais. As idéias estão como elas são. Mas no final, cada um, simplesmente irá ter uma só idéia de todo o conjunto. E, se o texto for bom, ninguém concordará entre si.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A Invasão das Borboletas


Começou como é típico em vésperas de qualquer primavera de cidadezinha de interior: alfaces e couves infestadas de repente com ovinhos de borboleta. Alguns poucos cidadãos mais atentos, entretanto, notaram que este ano parecia haver mais ovos do que o comum – não importava quantos fossem esmagados, sempre havia mais e mais deles nas folhas das hortaliças.

Algum tempo depois, eram as lagartas que empesteavam as singelas plantações de subsistência. Muitas pessoas tiveram a sensação de que havia lagartas demais este ano, muito mais do que jamais haviam visto. Quanto mais matavam os bichos, mais certeza tinham de que havia lagarta demais – tantas como se fosse impossível (ou inútil?) exterminá-las. Pela primeira vez desde que se lembravam, alfaces e couves tornaram-se itens raros em suas refeições.

Quando os casulos, enfim, apareceram grudados aos montes em muros, paredes, ripas, troncos e inúmeros outros lugares propícios, a população daquela cidade levou susto grande. De início, evitavam escorar-se em lugar qualquer que fosse, para não esmagar as pupas. Locomoviam-se com cautela para não pisá-las. Os adultos recomendavam às crianças que deixassem em paz as ninfas.

Com o tempo, porém, tornou-se incômoda tal situação. Quase não havia mais lugar livre daqueles bichos encasulados. Cantos, canos, corrimões – até nos automóveis eles grudavam-se. Bancos, buracos no asfalto, lâmpadas, outdoors – tudo tapado por eles. A cidade inteira infestava-se.

E, esmagados inadvertidamente diante da impossibilidade de serem preservados, tantos que eram, os casulos tornavam-se massa gosmenta e repugnante espalhada por todos os lugares. Em pouco tempo, já as pessoas precisavam desocupar lugares, pois que precisavam agir e prosseguir em suas vidas, daí que varriam calçadas e muros e enchiam latas e mais latas de casulos, bem como incentivavam as crianças a brincarem de exterminar os bichos. E, ainda muito embora tenha sido assim, o número deles parecia jamais diminuir – antes o oposto, parecia sempre aumentar.

Até que houve o dia em que as primeiras borboletas nasceram. E logo as outras também. Em poucos dias, a quantidade de asas em voo por aquelas plagas era tamanha que ninguém, estando são de consciência, se aventurava a sair de casa. As borboletas, em número infinito, eram bem capazes de derrubar qualquer cidadão, mesmo os mais fortes, em atitude de arrastão; eram capazes de entupir escapamentos de carros e tubulações de ar condicionados; eram bem capazes de pousar em alimentos e cair goela abaixo sem se darem por notadas.

Não demorou muito até que portas e janelas precisassem ser e permanecer fechadas – e até as frestas houveram que ser vedadas, tanto pó colorido de asa de borboleta pairava nos ares. Bichos predadores sentiram-se atraídos por tanta fartura e já migravam para lá. A prefeitura e a secretaria responsável tentaram uma ação de envenenamento por fumacê. Em vão, pois que, se muitas borboletas morriam, milhares de outras nasciam no mesmo dia. Alguns habitantes, mais corajosos, tentaram armadilhas, enquanto as crianças se deliciavam com brincadeiras de tiro ao alvo, tapas mortíferos no ar ou apostas de quem capturava mais bichos. Tudo em vão, posto que, quanto mais matavam borboletas, mais delas surgiam para repor o exército alado e colorido. O caos instalou-se na pequena cidade e já ninguém sabia mais o que fazer para solver a questão.

E foi então que, numa manhã ensombrecida pelas asas que, de tantas que eram, dificultavam a irradiação natural do sol, uma menina adolescida sentiu-se sufocada dentro do quarto que era o seu. Sem mais poder conter-se, abriu a janela e subiu no parapeito. Ondas e mais ondas de borboletas invadiram seus aposentos, fizeram-na desequilibrar e cair da janela. Antes que tocasse o chão, porém, um tapete voador composto por borboletas multicores a fez flutuar.

A menina abriu os braços e fechou os olhos – deixou-se levar por aquelas asas. E as borboletas a levaram para fora, para o alto, tão alto que, quanto a menina quis abrir os olhos, nada mais viu além do céu acima de si e uma nuvem gigantesca de borboletas abaixo.

Estonteante de alegria, ela se jogou do tapete e foi recebida pelas amigas lá embaixo, se jogou de novo e foi salva de novo, e mais uma vez e tanto que quase sentiu que voava. Todas as borboletas se reuniram num ponto do céu para brincar com a menina. E alguém, lá embaixo, na cidade, viu aquilo e mostrou pros outros, e logo a cidade inteira parou para contemplar o espetáculo de bailarinas cheias de asas e menina no meio delas.

Somente ao fim do dia foi que as borboletas levaram a amiga de volta para o chão. E todos os moradores da cidade as receberam com flores e sorrisos. E, sem entender o que acontecia, viram as borboletas irem embora, todas juntas, para lugar qualquer do mundo, bem longe dali. E cada um que ali estava desejou com muita sinceritude que elas voltassem no dia seguinte, o que – obviamente – não aconteceu.

As borboletas jamais voltariam àquela cidade. Ainda tinham muitas outras para ensinar...


domingo, 27 de dezembro de 2009

Vingança


Havia já 16 anos desde que fora atacado pelos lobos brancos. As lembranças daquele noite já não lhe perturbavam tanto, mas ainda apareciam às vezes, durante o sono. No começo se revoltou, quis se vingar, fugir... Mas jamais conseguiria se vingar ou fugir das centenas de lobos brancos que o atacaram. Por isso, acabou se juntando a eles.

Levou algum tempo até descobrir a verdade sobre o aumento desordenado da população de lobos naquela região. Aquela história de que eles começaram a se reproduzir desordenadamente era uma farsa. Em primeiro lugar, eles se reproduziam muito pouco, pois a quantidade de fêmeas era insignificante por ali e elas só permitiam a cópula nas épocas de cio. Em segundo, os lobos brancos eram nômades caçadores e migraram para aquele lugar após serem escorraçados de um vilarejo no estado vizinho. Devoraram os lobos nativos e, desde então, começaram a se alimentar principalmente de pessoas que passavam desavisadas pelo lugar, o que acontecia regularmente.

Não entendia como as pessoas continuavam se aventurando por aqueles caminhos, mesmo sabendo do perigo que corriam. Descobriu, ao longo dos anos, que era aquela velhinha caquética quem as convencia a caminharem rumo ao Grande Rio, em troca de os lobos deixarem em paz a população do vilarejo. Como a região era um ponto turístico muito famoso e importante no país, todos os dias recebiam boas e fartas refeições humanas: 10, 20 pessoas, às vezes o dobro disso.

Algumas vezes, caçadores armados atiravam nos lobos, mas eles nem mesmo sangravam. Aqueles lobos não morriam. Lobisomens. A população de lobos aumentava desordenadamente por esse motivo. Uma espécie de lobisomens que não tinham mais necessidade de se transformar em homens para caçar, visto que a caça ia certeira até eles. E ele também se tornou um deles. Também comia turistas desavisados que se perdiam por aqueles prados.

Nos primeiros dias após o ataque, foi difícil acreditar no que seus olhos viam, mas logo as evidências se tornaram incontestáveis. Havia se transformado em um deles e o mesmo acontecia com todos aqueles que eram atacados nas sextas-feiras do mês de agosto.

Conseguiu viver assim por 16 anos, assim como seu amigo. Tempo suficiente para que planejasse algo – qualquer coisa – que pudesse interromper a situação. Procurou por anos a fio até encontrar a erva – uma que conhecia de tradições antigas, única capaz de acabar com essa espécie de lobo. Já não podia contar com o amigo, há muito integrado como se fora nascido ali, lobisomem como os outros – tornara-se o chefe da alcateia. Haveria que agir sozinho.

Assim, em dia que julgou conveniente, ingeriu quantidade adequada do veneno e provocou o amigo da maneira como sabia que deveria ser. Provocou-lhe irritação, raiva, ódio, fúria... Os outros lobos todos se manifestaram, sabiam como agir em situações desse tipo. Desafiar o chefe era erro imperdoável. Qualquer outra infração às regras poderia ser relevada, menos essa.

A uma ordem do chefe, os lobos atacaram – sem que reação alguma de fuga ou enfrentamento fosse percebida no infrator. Cada um dos lobisomens obteve um naco daquele corpo, embora a parte mais nobre – o coração – ficasse reservada ao chefe.

Somente muitos dias depois, quando uma quantidade inenarrável de urubus foi capaz de formar uma nuvem que cobrisse a luz do sol por mais do que alguns instantes, a população do vilarejo se deu conta do significado da palavra “liberdade”.