Pessoas costumam saber desde a infância que a Terra é redonda, mas poucas conseguem sentir como os pensamentos são redondos. Tanto a Terra quanto os pensamentos são como o útero. O útero é redondo. O útero cria. O pensamento cria. A Terra cria. O útero aquece.
O útero aquece.
Percebo o útero como um cão percebe a rosa. A rosa vem do útero: o botão uterino abre-se, enchendo de beleza os prados. O homem não sabe do útero, mas este existe e está em todos os lugares. A visão que tenho do vaso solto sobre a estante faz-me lembrar do útero. Há um útero sobre minha cabeça agora. E o útero também poderá ser quadrado, depende isto da atitude de quem o sente como um útero. As máquinas também vêm do útero, nascem do pretexto de se criarem e isso ocorre a partir de um mesmo útero. O útero vê coisas.
O útero vê.
O útero sabe que há histórias que começam com dias vividos, e que outras começam com duas pessoas. Mas esta história que escrevo talvez comece com o útero somente, pois o útero é só, está sozinho no tempo, são as pessoas que o procuram. A cerâmica é queimada no útero, quente e incandescente útero de milagres que cercam a humanidade por séculos antes do primeiro útero, se é que existiu o primeiro útero. É que existir algo antes do útero é incerto. Nem o ovo. O ovo veio do útero. As palavras ditas por todos nós atravessaram o ovo, mas na verdade vieram do útero.
O útero é como vidro. Nele, as coisas se quebram para depois se juntarem novamente, formando outras coisas. O vidro existe para sustentar o útero. O útero é como o ovo, só que um pouco mais completo, pois no útero há o tudo. Tudo que é. Simplesmente é, e não há explicações para isso.
Encontro-me de repente com os lugares que me têm. Tal encontro é sempre trazido por alguma (plena) sinceridade, cheio de misteriosos martírios, repletos de elementos trazidos por mim agora, porém é como se fossem de quando eu não existia. E o útero está presente, sempre. Água vinda de atitudes sensíveis, que sensibilizam meu coração cada vez que escrevo para meu interior, o mim mesmo, desfiando a alma como uma rosa desfia o tempo de si mesma, enquanto ainda concentra sua força dentro do útero. A rosa também existe para mim.
Agora vejo o útero por um outro ângulo e consigo percebê-lo como um útero, regato das águas cristalinas que leva a vida até cada grão de areia, a fonte da sabedoria terrena. Todavia essa líquida e profunda fonte consegue levar ruína aos sem-impressão, pois não foram capazes de perceber a volatilidade do útero. Eles percebem o ovo, mas não chega. O ovo é incompleto. O ovo cria, não tem, entretanto, a impressão; ele é branco. O útero não possui cor nenhuma, ele pode abrigar todas as cores ao mesmo tempo. Um dia Clarice disse que amava o ovo, mas quem ama o útero consegue alcançar o Grá. O ovo pode ser branco, mas o útero não possui cor nenhuma, por isso ele está mais próximo ao Grá.
Sinto um oco no interior do peito cheio de receio e logo percebo que é a presença do interior do útero em meu interior. De repente sinto - e isto é correto sentir - também o amor pelo começo. O começo de quê? Não sei ainda, só sei que é o começo. Talvez seja o começo da vida que eu gostaria de ter. Não sei que começo é este. Clarice dedicou ao ovo o começo. O que sei é que o útero existe e é isso o que importa. O útero me vê e não o velo com meus olhos, pois não o vejo. Velo o útero com meu corpo. Ele possui a permissão de me ver. O útero pode ver o que lhe convier. Os outros é que não conseguem ver o útero como ele é, porque ele muda a cada momento. Acabo de dizer isso e o útero já mudou mais de cem vezes. Não se sabe como o útero é na realidade porque a realidade não existe na realidade. A realidade é apenas um reflexo, uma aparência de algo já incerto. Por isso, ver a realidade é ver o incomprovável.
O ovo se parece com o útero não na aparência, já que o útero não a tem, mas na fonte. E a fonte nasce, renasce, morre e pré-nasce. Devo esforçar-me para não deixar os pensamentos perderem a redondez de suas formas, caso contrário perderei o poder do útero. O útero vem cada vez que o chamo, e daí torno-me a abstração do dia em que fui alguém sem ser. Voltei a ser. O útero come.
O útero come.
O útero alimenta-se de tudo o que pode ser fixo e dificultoso como um instante de prazer. A avenida onde passo todos os dias precisa do útero. O útero é imenso, seu tamanho é indiscutível.
Do útero bebe-se para fazer acontecer, levando nuvens plácidas para aquém das montanhas.
Sinto o útero atrás de mim, mal viro-me e deparo-me com o nada. O útero necessita ocultar-se. Não sou eu, ele o quer. Tento retroceder para obter tudo de novo, mas não sou eu que tem a chance, é o útero que a tem. Ele quer assim.
Paro a escrita e procuro sentir o vento que entra pela janela a balançar meu rosto. Cabelos. A chuva então vem penetrar em meus ouvidos musicalmente (a chuva e os trovões também vêm do interior do útero), e de repente o útero é tudo para mim.
Diante de todo o mistério que encanta minha experiência, é o útero que também cria minhas desventuras. É ele que ordena que eu pranteie. Tenho mágoas de mim, sou semelhante a mim, não posso ficar sem mim mesmo, e a culpa de eu me sentir assim é do útero. Esta é, talvez, a principal diferença entre o útero e o ovo. O ovo não pode fazer o mal porque não tem personalidade. O útero tem. O útero sabe que às vezes faz o mal, mas não é obrigação dele fazer algo para que isso não aconteça. A função do útero é criar. Criar o eu e o tu. O ovo veio para criar o imparcial, portanto o ovo cria o sem-nome. O ovo cria o que pode ser. O útero, o que é. Eu ainda não sou para mim.
Desvelo a alma cada vez que percebo o útero a rondar meu espaço. É do meu desejo conhecê-lo. Todavia, o útero é intocável. Consigo tocar o útero como toco em meus sonhos, sentindo apenas o vento da tarde invadir-me. Então escrevo. O útero vem até mim. Sinto-o.
Sentir o útero é tocar o céu com o dedo em busca das estrelas, e ver a lua se extinguindo em forças de prazer para sugar da Terra a mesma sensação dada pelo útero aos humanos. O útero é a lua do mês de março. Quando conheci o ovo descobri como poderia vir a ser o útero. A Terra é como a fonte do útero.
Quando vi o céu pela primeira vez, conheci o formato provável do útero. Então, aprendi o segredo de mim. O útero passeia em torno de mim enquanto escrevo. Então escrevo mais ainda. Descobri que descobrir a existência do útero é querer escrever por toda a eternidade. As palavras dadas de presente sendo retiradas do centro exato do útero. O útero também destrói.
O útero destrói.
Quando o mundo deixa de perceber a grandeza do útero, a grandeza do espaço evapora o mundo. Mas o útero não sai do mundo onde vive. O mundo é que sai do interior do útero, carregando o pó árduo da humanidade vinda do útero. A música de todo o mundo é composta no útero. Somos todos do útero.
Engano daqueles que pensam que (e esteja certo de que a maioria pensa assim) que o útero criou o masculino e o feminino. Foi o ovo que criou o masculino e o feminino. O que o útero criou foi o masculino-feminino. Absoluto. Mas o útero também cria tristezas.
Embora o útero tenha sempre a melhor das intenções, foi ele quem criou a água bebida pelos apaixonados. Portanto, os amantes são aqueles que bebem a água vinda do útero. É o útero que ordena que as pessoas se apaixonem. Do útero vem o amor. E é por essa razão que o útero gera também o Não-Ter. O útero gera o não-ter-esperança. Se soubessem da existência do útero, muitas pessoas o teriam amputado, arrancando de dentro delas o desespero. Por isso a rosa é feliz, porquanto vem do útero, mas não o possui. Destarte, a rosa constrói.
A rosa constrói.
Da rosa vem a felicidade. A felicidade nasce de dentro da rosa que não tem sementes, pois se as tiver, não haverá nascimento. É isso, a felicidade não pode ser criada a partir de sementes. Também não pode ser criada pelo útero ou pelo ovo. A rosa sem sementes é que cria a felicidade. A felicidade é criada a cada instante e o material utilizado para sua criação é a própria visão da rosa. A rosa que é vista através das janelas.
A rosa é, por essa razão, superior ao útero e ao ovo, porque ambos criam aquilo que já está pronto. A rosa não. A rosa não cria nada; é da sua imagem que surge o quase-imperceptível-instante. A rosa faz as pessoas sentirem-se desejosas de si mesmas, mas a felicidade vinda de sua imagem só é percebida por aqueles que forem capazes de se descobrirem, não como seres humanos, mas como si mesmas. Atingir o Grá pela rosa é a maior conquista humana. Quem atinge o Grá pelo útero o perde na primavera. Atingir o Grá pela rosa é eterno, pois a rosa faz parte do Grá.
A rosa oferece o que não possui de si. É por isso que ela é superior ao útero e ao ovo. Da rosa vem a felicidade, não o amor. Da rosa vem a amizade. A amizade é eterna. O amor não. O amor é criação do útero.